Ode à Filosofia Concreta

Uma homenagem poética no dia de aniversário de Mário Ferreira dos Santos (1)

“De todas as especulações que atualmente se podem fazer sobre o mundo, nenhuma teria sido possível se os homens não tivessem visto nem os astros, nem o Sol, nem o Céu. Porém, na situação efetiva, existem o dia e a noite, os equinócios, os solstícios, coisas que nos deram o conhecimento do número e nos permitiram especular sobre a essência do universo. Graças a isso foi nos dada essa espécie de ciência, da qual pode se dizer que nenhum bem maior foi dado ao homem… O motivo pelo qual Deus criou a visão foi seu pré-conhecimento de que, tendo nós humanos observado os movimentos periódicos e regulares da inteligência divina nos céus, poderíamos fazer uso deles em nós mesmos: tendo estudado a fundo esses movimentos celestes, que são partícipes da retidão da inteligência divina, poderemos então ordenar por eles nossos próprios pensamentos, os quais, deixados a si mesmos, não cessam de errar”.

Platão
Timeu

“Esse ponto é importante para fazer ressaltar o que chamamos de via symbolica. Porque, se muitas vezes os religiosos escolhem um símbolo para se referirem a um simbolizado, podem, no entanto, prosseguir, através de hierarquias simbólicas, até alcançar um per essentia, que é Deus, o grande simbolizado por todas as perfeições que possamos captar das coisas da nossa experiência”.

Mário Ferreira dos Santos
Tratado de Simbólica

Agradeço mais uma vez a Renan Santos pela oportunidade de escrever para o presente número da nossa Filosofia Concreta. Como estamos no início de um novo ano, resolvi presentear os leitores comentando um poema astrológico 2.

Este poema foi enviado por email por Albano Reis, leitor do nosso site Filosofia Concreta, com o objetivo de louvar em versos as conquistas e alguns dos pontos altos da Filosofia de Mário Ferreira dos Santos, como a Via Simbólica e as Leis Eternas. Com a permissão do leitor, eu fiz alguns comentários e notas para esclarecer as principais passagens de seu poema, que remetem diretamente aos aspectos filosóficos mais significativos. Eu também dividi o poema em quatro cantos, escrevendo no início de cada um deles um pequeno resumo da narrativa exposta nos versos, de modo a orientar a leitura do texto e classificar seus temas.

 

 

Quatro Direções na Via Symbolica

Albano Reis


Primeira direção

A descoberta da Filosofia Concreta na Ordem Cósmica

Ao contemplar o céu uma vez, o Filósofo Concreto percebe algo estranho e inquietante. O espanto original e poético o conduz a buscar o céu cada vez mais, como uma necessidade amorosa. O Filósofo Concreto olha para o céu novamente e percebe nele a Via Symbolica que, na expressão de Mário Ferreira dos Santos, é o caminho em que as essências finitas são símbolos da essência infinita e participantes de suas perfeições. Surge a encarnação da Filosofia Concreta, que promete iniciar o Filósofo nos mistérios e arcanos da Astrologia. No início, o Filósofo pensa tratar-se de um sonho, mas a Filosofia Concreta sugere que o Filósofo se liberte de conceitos abstratos e desvinculados da experiência e sugere ainda que – na ordem cósmica simbolizada pelos aspectos astrológicos – encontrem-se As Leis Eternas. A Filosofia Concreta vai conduzir o Filósofo por esta direção na Via Symbolica.

Canto I

Foi contemplando os astros uma vez
Que percebi nas luzes das estrelas
Uma outra luz! Um outro ser! Vermelhas
Chamas e um novo mundo então se fez.

No silêncio do céu eu descobria
Os segredos da vida e a flor do inferno,
É lá que Deus derrama o Amor eterno,
Qual um rio perene sua sabedoria.

Foi contemplando os astros novamente
Que de um eco pareci ouvir: te amo!
E abriu-se o espaço em místico oceano,
Pra iluminar meus olhos simplesmente.

Num relâmpago o céu se uniu com a terra
E as nuvens confundiram-se com os mares,
Os pássaros com os peixes pelos ares,
A água irmã do fogo e o sol e a serra.

E ela apareceu! Concreta e luzidia
Vestida em um manto qual Santa Teresa 3,
Flutuando nos mistérios da beleza,
Num astro cintilante: A Filosofia.

Brilhava com mil sóis essa mulher
Coroada de estrelas e perfumes
Ao sol do amor que a luz do céu resume
Eu tive medo!… Num pranto então qualquer.

Senti que o Amor que Deus irradiava
No coração da Filosofia
(Da natureza oculta a Sinfonia)
À verdade aos homens revelava.

Aproximou-se! Eu cético, eu descrente,
Que aquilo de um sonho não passava 4,
Pois minha angústia ao peito não cessava,
“Não temas”! Disse-me o Anjo reluzente!

“Que todos teus conceitos estão errados!
– Vou te levar aos rastros dos cometas,
– Vou te levar ao sol e a seus planetas,
– Vem! Segue o luar de meus passos dourados”.

“Eu vou te iniciar na Astrologia
Para que neste mundo os teus caminhos,
Libertem-se do erro e dos espinhos.
Eu vim para inspirar tua poesia”.

“Iluminando as sombras das Cavernas
Renasce em ti a ânsia e o cruel conflito.
Na cósmica liturgia do infinito
Eu vou te apresentar as leis eternas 5”.

“Mas, ouve-me! Eu vou te indicar no universo
O que não sabes! E o que tu mesmo inventas!
Talvez nesta alquimia não me entendas!
Os signos e os planetas no teu verso”.

***

“Mas pára! Ouve-me! E depois, segue-me!
Não queiras entender-me com a razão,
Escuta o canto do teu coração,
Talvez entendas que esse céu se move.”

 

 

Segunda direção
A Revelação das Dores Místicas na Noite Escura da Alma

A Filosofia Concreta recita um turbilhão de versos e imagens que evocam paisagens míticas e o imaginário do planeta Saturno 6. Esta é uma preparação para a condução do Filósofo  na Via Symbolica. Após o término do discurso poético da Filosofia, o filósofo a segue entre espinhos e rosas.

Canto II

A Filosofia libertou almas escravas
Que misteriosas chamas de harmonia
Revelavam a sublime poesia
E recitou-me ao luar estas palavras:

“Quero a mística, o sonho, a pedra rara,
Enfeitando de Amor clarões e círios,
Quero a pena de todos os martírios
No último ocaso azul que o sol criara.”

“Quero a jóia da furna mais profunda
Derradeiro avultar de tristes sinas,
Mas contemplando lágrimas divinas,
Vibrando no calor da alma fecunda”.

“Em rimas celestiais tormentos rudes
Tal como o reluzir de finas pratas,
Celebre o luar de serenatas
Nos sacrários de austeras plenitudes”.

“Vibre as cordas vivas da saudade
Num cortejo de cânticos alados,
Em paraísos sepulcrais, sagrados,
Os ramos da Sofia e a Santidade”.

“Jurei que a mágoa ardente em seu ensejo
No coração em chamas se aninhasse,
Vênus a revelar fosfórea face,
Fogueiras rutilantes do desejo”.

“E rios perfumados de remorsos
Em dilacerações senis, extremas,
Vertem lustrais de místicas supremas,
Numa dança de espíritos nervosos”.

“Jorros febris de radiosos prantos
Amanhecer do sentimento infindo,
Ventos… douradas pétalas florindo,
Cobrindo o chão de divinais encantos”.

“Olências virginais da névoa fria
Sombra da cova no jardim da vida,
Amável flor na treva apodrecida,
Purezas liriais, lua sombria”.

“É a desgraça batendo à tua porta!
Nas violações supremas dos segredos
Trazendo inspirações que impelem medos
E o choro atroz da natureza morta”.

“Frágil concha uma pérola gerou,
De tão vazia vida perde o brilho
O que deixou na cruz  morrer um filho
Para sempre meu sangue envenenou”.

“Que as negras convulsões e que as feridas
Na estrofe ergam o sonho sepultado,
Cantando todas glórias do passado,
Semeiem luz nas amplidões perdidas”.

“A sensação da solidão serena
Vive em teu peito em estranho sofrimento,
Quando desceres ao cruel tormento,
Cansado, então, da dúvida terrena.”

“Para escrever teus versos na aspereza
Lembrando as florescências dos incestos,
Como quem ergue túmulos funestos,
No resvalar sublime da tristeza”.

“O sentimento – pássaro cativo –
Arte pura 7 que flui da eterna chama,
Plangências imortais do céu derrama,
No breve e eterno instante em que Revivo!”

***

Cessaram, então, aquelas misteriosas
Palavras como um sol de diamante,
Comecei a segui-la confiante,
Num caminho de espinhos e de rosas.

 

 

Terceira direção
O Encontro com os números no Palácio da Memória  e Transcendência

O crepúsculo simboliza a passagem do tempo, enquanto o Filósofo ouve a música das esferas e enxerga imagens da missa católica e do Apocalipse 8. Tal qual Platão, o Filósofo encontra o conhecimento do número inspirado no ritmo da ordem cósmica. Como Pitágoras, o Filósofo começa a enxergar nas coisas do mundo a aparência do número. A Filosofia transforma-se numa águia dourada para conduzir o Filósofo às regiões etéreas. O Filósofo sente-se arrebatado e voa nas asas da águia em direção ao Amor maior, e logo ele percebe na natureza uma Presença. Ocorre o encontro entre a razão e a beleza como preparação para as Leis Eternas. Por fim, o Filósofo depara-se na Via Symbolica com o misterioso e imponente Palácio da Memória e da Transcendência.

Canto III

O fúlgido crepúsculo expirava
Quando me apercebi que, ao acaso,
Rompendo o atro silêncio desse ocaso,
Uma indistinta música ecoava.

Que me diz esse som? Eu indagava.
E o coração revolto no descaso,
E em tudo uma resposta ao mesmo acaso,
O belo aroma que me alentava.

Era a música das esferas, das estrelas!
Maravilhosas em órbitas elípticas,
E imagens assustadoras, apocalípticas!
Brilhavam como a chama de mil velas.

Senti passar por mim na transcendência
Qual vultos de fantasmas e miragens,
Rodas de fogo e gelo em carruagens,
Formas e matérias em potência.

E eram números! O sonho de Pitágoras!
Volvendo ao Quaternário da Saudade
No ritmo e expressão da unidade
E o sopro vital no céu de Anaxágoras.

Áureas flamas, vagas, luzidia
Números do esplendor da forma pura
Urdidos pelas mãos da formosura
Tecidos pela luz de um claro dia.

Luares claros, vênus lhes servia.
Por terra, por céu, por noite escura,
O sangue das batalhas e a ternura
Das luzes solidárias da harmonia.

A perfeição dos números e sua beleza
Do qual o mundo é sombra e é disfarce,
Nas lágrimas sinceras da catarse,
Purificavam toda a natureza.

O número é símbolo e é sinal
Da ordem do ser e melodia,
(A cada hora e momento e instante e dia),
Refaz o sonho e a lira celestial.

A Filosofia Concreta me ensinava
– Águia dourada: o trivium e a liberdade -,
As lições da consciência e da verdade,
O destino das almas encantava.

Nas asas dessa águia eu voava
Contra dragões de imortais cabeças,
De astro em astro; (e em estrela resplandeça),
O Amor que o universo inteiro devorava 9!

A Natureza deixou-se conhecer,
E eu vi nas trevas as luzes renascendo,
Oceanos verdes águas iam tecendo,
E a Presença Infinita de Outro Ser.

Uma força maior que a Natureza
Permitiu-me enxergar na intuição,
Os mistérios, princípios da razão,
Todas as leis da imortal beleza!

***

O Palácio da Memória e Transcendência 10
Ergue-se, enfim! Das sombras das luzernas,
Então eu pude ver as leis eternas!
Que formam o Ser e o nada na imanência 11.

 

 

Quarta direção
A Contemplação das Leis Eternas

Os números começam a surgir do infinito. À medida em que contempla a infinita capacidade de combinação dos números e as diversas ordens de realidade que estes concrecionam, o Filósofo vai sentindo sua consciência se ampliando. Ele, então, é conduzido aos planetas do sistema solar. Cada planeta simboliza um número e uma ordem de realidade 12. O Filósofo contempla demoradamente as Leis Eternas.  A dialética simbólica se desdobra e se desenvolve via espaço e via tempo. Há o encontro da estrela com o número nos mares de Netuno. O Filósofo contempla, ao final, a Década Sagrada e o nascimento da Árvore da Vida.

Canto IV

Os números surgiam do infinito
Um, dois, três e quatro, cinco, seis e sete,
Como elétrons giravam o molinete,
Oito, nove e dez! fechavam o rito.

E cada um na multiplicidade 13
Na aritmética fundamental do caos,
Da consciência subia os seus degraus,
E encontrava a ordem na unidade.

Levou-me ao Sol à imortal beleza
Cujos raios de estrela me guiavam,
As rodas da fortuna incendiavam
E atravessavam o céu com aspereza.

Do Um eu via a Suprema e pura forma
Ubiqüidade. Sol do amanhecer,
A proporção intríseca do Ser,
E a integração no Amor que se transforma.

Era a lei da unidade! O Ser Supremo
Que todos outros seres obedecem,
Como soldados amorosos seguem,
O sacrifício cristão de Amor extremo.

Em Mercúrio encontrei a oposição.
Do dois. (Do Alto Ser e das criaturas),
Que sofriam na matéria a ruptura,
E a quebra da unidade e integração.

Morava a paz no coração profundo
Necessária desordem do objeto,
Da Lei que limita e gera o ser concreto,
E todas as tensões que criam o mundo.

O fundamento persiste na essência,
(O infinito o ser finito toca,)
E em múltiplas potências se desloca,
O Ato permanente da existência.

Em Vênus a Lei três se apresentava
Qual profecia sagrada e incomum,
Unia o um ao dois e o dois ao um,
A Relação dos seres confirmava.

Na sombra da lua em suas mutações
Encontrei, afinal, O Quaternário,
Subi também às sombras do calvário,
Em cruzes, fases, mistérios e estações 14.

Em Marte presenciei longas batalhas
De Amor e ódio! De opostos circulares,
E a Lei Cinco: Banquete nos altares,
Corredores de espadas e navalhas.

Na Lei Cinco eu vi o céu por dentro.
E infinitas combinações em mil arranjos,
De estrelas sempiternas e arcanjos,
Possuindo a Forma estável como centro.

Em Júpiter a criação ganha sentido
A Lei do Seis integra os pontos altos,
Dentro do ser existem enormes saltos,
Que a Revelação tem acolhido.

No Seis a harmonia subordina
Todos opostos que se contradizem,
Para que as feridas cicatrizem,
O seis se espalha qual canção divina.

Por todo o universo se espalhou
A canção de Deus na luz dos astros,
A evolução do Sete segue os rastros,
Nos anéis de Saturno se inspirou.

Tempestades febris no céu de Urano
Mais mutações nas formas e nas eras,
A Lei do Oito (a assunção) deveras,
Refaz no mundo inteiro um novo arcano.

Estrela e número! Encontro cardinal!
Nos mares de Netuno as ondas bravas,
Das almas no Amor ressuscitadas,
À Lei da integração universal.

Era a Lei do Nove em formas várias
Síntese de três mundos e formosura,
Dos entes singulares a estrutura,
À todas às espécies solidárias.

Cheguei, enfim, ao Dez!E procurei
A Lei da unidade transcendente,
Que rege a essência humana e o acidente,
O destino do universo eu contemplei!

***

Das Leis Eternas a auréola mais louçã
Iluminava o mundo A Década Sagrada,
E a Árvore da Vida desejada 15,
Nascia com as flores da manhã.

 

 

Epílogo: A Quinta Via
A Inteligência Ordenadora
16

Com o epílogo, os números reinam na realidade, ainda que humildes e discretos como os monges. Um imenso poema é tecido por todos os signos do zodíaco, e forma-se um círculo de percepções filosóficas no céu. Com os pés na terra, o Filósofo descobre que deve guiar sua inteligência por meio da regularidade e dos ritmos dos astros. A ordem cósmica inspira a Filosofia Concreta na Via Symbolica 17. Chega-se ao fim da caminhada. A oração do Filósofo sobe aos céus, e há o milagre da transfiguração do Sol. A Filosofia Concreta conduz o Filósofo, por fim, ao encontro da Presença Total do Grande Ser.

Canto V

Coroados de luas e estrelas 18
Os números a noite iluminavam
Qual monges nos desertos e capelas.

Dentro da esfera secular cantavam
No círculo do céu grande poema,
Os signos no espaço celebravam!

Cintilações do Amor: Ordem e Sistema
O que compõe a celestial ciência,
E as demonstrações de um teorema.

Os astros guiam assim a inteligência
No início, fim e meio da jornada
Á concreção no centro da consciência

O coração é a verdadeira estrada
Deixando-o iluminar em palco imenso
Chegamos ao final da caminhada.

Subiu ao céu a oração do incenso
(Entre espécie e seres singulares?) 19
Na transfiguração do sol suspenso.

E a Filosofia mostrou, enfim, nos ares
Abençoada pelo amanhecer,
No infinito ritmo dos mares:

A Presença Total do Grande Ser!
 

 

Notas

1. Dedico este ensaio à Érica Melo: uma escorpiana linda que causa sempre em mim os maiores espantos filosóficos.

2. A Astrologia aqui é compreendida como estrutura ou sistema cosmológico tradicional que integra e articula a natureza, o símbolo e a filosofia.

3. Referência à Santa Teresa D´Ávila (1515-1582) célebre mística espanhola e conselheira de São João da Cruz.  O curioso é que o autor deste poema astrológico parece saber que a Filosofia Concreta realizada por Mário Ferreira dos Santos é uma síntese perene de várias tradições filosóficas já existentes e que remontam aos milésios, aos jônios, a Platão, Aristóteles, São Tomás e todo um gênero de grandes espíritos. Albano Reis procura também situar o sistema de intuições espirituais de Mário Ferreira dos Santos como tendo uma de suas origens e fontes de inspiração na mística cristã.

4. Dizia Mário Ferreira dos Santos em Tratado de Simbólica:
“O homem moderno predominantemente metropolitano, que perdeu os nexos simbólicos dos fatos, não vê bem a significabilidade das coisas. Elas apenas são factos do seu mundo sensível, ou, quando muito, intelectualizados através dos sinais e símbolos matemáticos. Tal facto não revela uma superioridade do homem moderno, porque nesse preciso momento em que ele esquece a via symbolica, ou que ele a perde totalmente, encontra-se só, coisa entre coisas, e a angústia que o avassala é mais o sentir de um vazio, de uma falta, que o homem, por desconhecê-la, traduz pelo conceito que expressa a sua grande ausência: nada. E se lhe perguntarem por que se angustia, entre espantado e atônito ele balbuciará apenas: ‘não sei, angustio-me por nada’.”

5. Para que as Leis Eternas sejam reveladas faz-se necessário o percurso da Via Symbolica. Essa é uma tese implícita na obra de Mário Ferreira dos Santos, que Albano Reis busca ressaltar. Infelizmente, essa perspectiva não está muito clara para muitos dos leitores de Mário Ferreira dos Santos e, em parte, isso se deve a própria organização editorial dos textos do filósofo brasileiro. Partir logo para o monumental pensamento metafísico de Mário Ferreira dos Santos sem passar pelo treinamento simbólico que torna concreta e sensível a ordem da realidade é o mesmo que desaguar num mero abstratismo lógico e formal – algo tão combatido por Mário Ferreira dos Santos como um mal da filosofia da nossa época. Por outro lado, iluminar as sombras da caverna é um simbolismo que, na tradição filosófica, remete ao mito da caverna de Platão. A luz entra aqui como símbolo da inteligibilidade, que torna possível – por meio da dialética – alcançar a verdadeira forma das coisas e os princípios que regem a estrutura da realidade.

6. Aqui, mais uma vez, Albano Reis parece querer aproximar o pensamento de Mário Ferreira dos Santos ao dos místicos cristãos. A expressão “noite escura da alma” remete a São João da Cruz. Prometo escrever sobre isso num ensaio próximo. Há uma série de aspectos ligados a Saturno nos versos do Canto II. Saturno possui uma influência marcante sobre os filósofos. Isso também pode indicar que as revoluções de Saturno estejam presentes no momento atual vivido por Albano Reis, que deve possuir, hoje, por volta de 29 anos de idade.

7. Algumas passagens deste Canto parecem sugerir técnicas para uma Arte Poética. Mas eu procuro compreender – dentro da proposta filosófica – essas passagens como a necessária estetização do mundo sobre a qual vai ser exercida a Via Symbolica.

8. Essa aproximação entre a Missa Católica e o Apocalipse foi muito bem apontada pelo teólogo Scott Hahn em O Banquete do Cordeiro, em que vemos, entre inúmeros aspectos interessantes, a analogia feita entre a Presença Real da Sagrada Eucaristia e a segunda volta do Nosso Senhor Jesus Cristo.

9. O Amor dos místicos (o amor que transfigura) existe aqui, obviamente, como uma expressão real do Amor de Deus. O que há de muito interessante neste ponto é que Albano Reis não toma a natureza como substituta da presença do ser, como fazem os românticos. A linguagem simbólica conduz aqui a um outro plano de realidade, e a ordem cósmica existe apenas dentro das Leis Eternas. Assim como São Tomás de Aquino, Mário Ferreira dos Santos tende a tomar a filosofia da natureza um sinônimo de teologia simbólica e não uma expressão metafísica e absoluta.

10. O Palácio da Memória e Transcendência certamente é uma evocação agostiniana. O método da memória em filosofia possui em Santo Agostinho uma de suas mais altas realizações. O Palácio da Memória e Transcendência muito se assemelha também ao centro da autoconsciência humana, que é o sacrário onde o filósofo se confessa e fala com Deus.

11. Como explica Mário Ferreira dos Santos em Tratado de Simbólica:
“A transcendência absoluta do ser não exclui a imanência total, porque todo ser finito, enquanto tal, não é o ser transcendente, mas é ser, e do ser, e a sua finitude não exclui a infinitude, porque desta ele depende. Tudo quanto é, no ser é do ser, e o que é finito participa desse Ser sem que o seja em toda a plenitude”.

12. A analogia entre o planeta e a lei eterna (cujo símbolo máximo neste Canto é o encontro cardinal entre o número e a estrela) consiste em integrar a ordem cósmica à ordem divina. Integração essa que não se desfaz em um só momento, mas que o símbolo ajuda a unificar no pensamento. No Canto IV, na quarta direção da Via Symbolica, há uma descrição detalhada de Albano Reis de cada uma das Leis Eternas de Mário Ferreira dos Santos.

13. “A dialéctica funda-se, portanto, na unidade do ser e também na unidade da inteligência, como um poder, cujo objecto natural é o ser. A unidade do ser afirma sua imanência absoluta em toda a multiplicidade, e é expressada pelos nossos esquemas. O ser transcendental é imanente a todo ser, e em todo o modo de ser, e é através da multiplicidade que a dialéctica o alcança”. Mário Ferreira dos Santos, em Tratado de Simbólica.

14. Entre múltiplas analogias do Quaternário, Albano Reis está se referindo, obviamente, aos quatro vértices da cruz, as quatro fases da lua, aos quatro mistérios sagrados e às quatro estações do ano. Mário interessou-se muito por essa simbólica, a ponto de fazer dela um de seus critérios para o estudo comparativo das grandes religiões.

15. Paralelo tecido entre a Década Sagrada dos Pitagóricos e a Árvore da Vida da tradição mística judaica.

16. O curioso é que o poema prometia quatro direções para uma Via Symbolica e é concluído com uma Quinta Via.  Essa é a mesma Quinta Via utilizada por São Tomás de Aquino para demonstrar a existência de Deus.

17. Albano Reis cumpre a “Profecia de Platão” exposta no Timeu há mais de dois mil anos: a de fazer da Astrologia – ou contemplação do movimento dos astros no céu – o fundamento e critério para a organização do pensamento filosófico, uma vez que as órbitas celestes obedecem às leis divinas.

18. Albano Reis escreve o epílogo em terza-rima, o que pode indicar ou a maturidade do pensamento filosófico alcançado à semelhança do silogismo, ou analogias simbólicas para a Santíssima Trindade.

19. Albano Reis parece querer encerrar seu poema como Aristóteles encerrou seu sistema filosófico: com uma grande interrogação sobre a singularidade do ser versus o seu aspecto e qualidades genéricas. Mas Albano Reis segue adiante e mostra como essa unidade do ser está dada e ocorre perante a Presença Total do Grande Ser. A presença do ser não se trata apenas de uma solução poética, mas de um dado absolutamente incontornável da realidade. Certamente Mário Ferreira dos Santos veria na presença do Ser o fundamento absoluto da concreção de todos os seres.
Veja-se também como a resolução do poema remete às imagens do livro do Gênesis: o Filósofo atravessa a Árvore da Vida e vai contemplar o princípio de todas as coisas, antes mesmo da criação do universo. A Filosofia apresentará ao Filósofo o Supremo Ser pairando sobre os mares (“E o Espírito de Deus pairava sobre as águas”, Gênesis 1:2) voltando, enfim, à origem de todas as ordens de realidade. No discurso filosófico tradicional temos, com Tales de Mileto, também a cosmologia primeira que assenta sobre as águas o princípio de todas as coisas e a substância simbólica (em que há a presença de Deus) como fundamento concreto de todas as coisas que existem.

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Uma homenagem poética no dia de aniversário de Mário Ferreira dos Santos (1) 
 
 
“De todas as especulações que atualmente se podem fazer sobre o mundo, nenhuma teria sido possível se os homens não tivessem visto nem os astros, nem o Sol, nem o Céu. Porém, na situação efetiva, existem o dia e a noite, os equinócios, os solstícios, coisas que nos deram o conhecimento do número e nos permitiram especular sobre a essência do universo. Graças a isso foi nos dada essa espécie de ciência, da qual pode se dizer que nenhum bem maior foi dado ao homem... O motivo pelo qual Deus criou a visão foi seu pré-conhecimento de que, tendo nós humanos observado os movimentos periódicos e regulares da inteligência divina nos céus, poderíamos fazer uso deles em nós mesmos: tendo estudado a fundo esses movimentos celestes, que são partícipes da retidão da inteligência divina, poderemos então ordenar por eles nossos próprios pensamentos, os quais, deixados a si mesmos, não cessam de errar”. 
 
Platão
Timeu 
 
 
“Esse ponto é importante para fazer ressaltar o que chamamos de via symbolica. Porque, se muitas vezes os religiosos escolhem um símbolo para se referirem a um simbolizado, podem, no entanto, prosseguir, através de hierarquias simbólicas, até alcançar um per essentia, que é Deus, o grande simbolizado por todas as perfeições que possamos captar das coisas da nossa experiência”. 
 
Mário Ferreira dos Santos
Tratado de Simbólica        
 
 

Agradeço mais uma vez a Renan Santos pela oportunidade de escrever para o presente número da nossa Filosofia Concreta. Como estamos no início de um novo ano, resolvi presentear os leitores comentando um poema astrológico (2).

Este poema foi enviado por email por Albano Reis, leitor do nosso site Filosofia Concreta, com o objetivo de louvar em versos as conquistas e alguns dos pontos altos da Filosofia de Mário Ferreira dos Santos, como a Via Simbólica e as Leis Eternas. Com a permissão do leitor, eu fiz alguns comentários e notas para esclarecer as principais passagens de seu poema, que remetem diretamente aos aspectos filosóficos mais significativos. Eu também dividi o poema em quatro cantos, escrevendo no início de cada um deles um pequeno resumo da narrativa exposta nos versos, de modo a orientar a leitura do texto e classificar seus temas.

 
 
Quatro Direções na Via Symbolica
 
                                                                                         Albano Reis  
 
Primeira direção
A descoberta da Filosofia Concreta na Ordem Cósmica                         
 
Ao contemplar o céu uma vez, o Filósofo Concreto percebe algo estranho e inquietante. O espanto original e poético o conduz a buscar o céu cada vez mais, como uma necessidade amorosa. O Filósofo Concreto olha para o céu novamente e percebe nele a Via Symbolica que, na expressão de Mário Ferreira dos Santos, é o caminho em que as essências finitas são símbolos da essência infinita e participantes de suas perfeições. Surge a encarnação da Filosofia Concreta, que promete iniciar o Filósofo nos mistérios e arcanos da Astrologia. No início, o Filósofo pensa tratar-se de um sonho, mas a Filosofia Concreta sugere que o Filósofo se liberte de conceitos abstratos e desvinculados da experiência e sugere ainda que - na ordem cósmica simbolizada pelos aspectos astrológicos - encontrem-se As Leis Eternas. A Filosofia Concreta vai conduzir o Filósofo por esta direção na Via Symbolica.   
 
Canto I 
           
Foi contemplando os astros uma vez
Que percebi nas luzes das estrelas
Uma outra luz! Um outro ser! Vermelhas
Chamas e um novo mundo então se fez.

No silêncio do céu eu descobria
Os segredos da vida e a flor do inferno,
É lá que Deus derrama o Amor eterno,
Qual um rio perene sua sabedoria.

Foi contemplando os astros novamente
Que de um eco pareci ouvir: te amo!
E abriu-se o espaço em místico oceano,
Pra iluminar meus olhos simplesmente.
 
Num relâmpago o céu se uniu com a terra
E as nuvens confundiram-se com os mares,
Os pássaros com os peixes pelos ares,
A água irmã do fogo e o sol e a serra.
 
E ela apareceu! Concreta e luzidia
Vestida em um manto qual Santa Teresa (3),
Flutuando nos mistérios da beleza,
Num astro cintilante: A Filosofia.
 
Brilhava com mil sóis essa mulher
Coroada de estrelas e perfumes
Ao sol do amor que a luz do céu resume
Eu tive medo!... Num pranto então qualquer.

Senti que o Amor que Deus irradiava
 No coração da Filosofia  
(Da natureza oculta a Sinfonia)
À verdade aos homens revelava.

Aproximou-se! Eu cético, eu descrente,
Que aquilo de um sonho não passava (4),
Pois minha angústia ao peito não cessava,
“Não temas”! Disse-me o Anjo reluzente!

“Que todos teus conceitos estão errados!
- Vou te levar aos rastros dos cometas,
- Vou te levar ao sol e a seus planetas,
- Vem! Segue o luar de meus passos dourados”.

“Eu vou te iniciar na Astrologia
Para que neste mundo os teus caminhos,
Libertem-se do erro e dos espinhos.
Eu vim para inspirar tua poesia”. 
 
“Iluminando as sombras das Cavernas
Renasce em ti a ânsia e o cruel conflito.
Na cósmica liturgia do infinito
Eu vou te apresentar as leis eternas (5)”.     
 
“Mas, ouve-me! Eu vou te indicar no universo
O que não sabes! E o que tu mesmo inventas!
Talvez nesta alquimia não me entendas!
Os signos e os planetas no teu verso”.
 
***
 
“Mas pára! Ouve-me! E depois, segue-me!
Não queiras entender-me com a razão,
Escuta o canto do teu coração,
Talvez entendas que esse céu se move.”
 
 
 
 
 
Segunda direção
A Revelação das Dores Místicas na Noite Escura da Alma
 
A Filosofia Concreta recita um turbilhão de versos e imagens que evocam paisagens míticas e o imaginário do planeta Saturno (6). Esta é uma preparação para a condução do Filósofo  na Via Symbolica. Após o término do discurso poético da Filosofia, o filósofo a segue entre espinhos e rosas.     

Canto II 
 
A Filosofia libertou almas escravas
Que misteriosas chamas de harmonia
Revelavam a sublime poesia
E recitou-me ao luar estas palavras: 
 
“Quero a mística, o sonho, a pedra rara,
Enfeitando de Amor clarões e círios,
Quero a pena de todos os martírios
No último ocaso azul que o sol criara.”

“Quero a jóia da furna mais profunda
Derradeiro avultar de tristes sinas,
Mas contemplando lágrimas divinas,
Vibrando no calor da alma fecunda”.


“Em rimas celestiais tormentos rudes
Tal como o reluzir de finas pratas,
Celebre o luar de serenatas
Nos sacrários de austeras plenitudes”.

“Vibre as cordas vivas da saudade
Num cortejo de cânticos alados,
Em paraísos sepulcrais, sagrados,
Os ramos da Sofia e a Santidade”. 

“Jurei que a mágoa ardente em seu ensejo
No coração em chamas se aninhasse,
Vênus a revelar fosfórea face,
Fogueiras rutilantes do desejo”. 
 
“E rios perfumados de remorsos
Em dilacerações senis, extremas,
Vertem lustrais de místicas supremas,
Numa dança de espíritos nervosos”.

“Jorros febris de radiosos prantos
Amanhecer do sentimento infindo,
Ventos... douradas pétalas florindo,
Cobrindo o chão de divinais encantos”.

“Olências virginais da névoa fria
Sombra da cova no jardim da vida,
Amável flor na treva apodrecida,
Purezas liriais, lua sombria”.

“É a desgraça batendo à tua porta!
Nas violações supremas dos segredos
Trazendo inspirações que impelem medos
E o choro atroz da natureza morta”.

“Frágil concha uma pérola gerou,
De tão vazia vida perde o brilho
O que deixou na cruz  morrer um filho
Para sempre meu sangue envenenou”.

 “Que as negras convulsões e que as feridas
Na estrofe ergam o sonho sepultado,
Cantando todas glórias do passado,
Semeiem luz nas amplidões perdidas”.
 
“A sensação da solidão serena
Vive em teu peito em estranho sofrimento,
Quando desceres ao cruel tormento,
Cansado, então, da dúvida terrena.”

“Para escrever teus versos na aspereza
Lembrando as florescências dos incestos,
Como quem ergue túmulos funestos,
No resvalar sublime da tristeza”.

“O sentimento – pássaro cativo –
Arte pura (7) que flui da eterna chama,
Plangências imortais do céu derrama,
No breve e eterno instante em que Revivo!”

***
 
Cessaram, então, aquelas misteriosas
Palavras como um sol de diamante,
Comecei a segui-la confiante,
Num caminho de espinhos e de rosas. 
 
 
 
Terceira direção
O Encontro com os números no Palácio da Memória  e Transcendência 
 
O crepúsculo simboliza a passagem do tempo, enquanto o Filósofo ouve a música das esferas e enxerga imagens da missa católica e do Apocalipse (8). Tal qual Platão, o Filósofo encontra o conhecimento do número inspirado no ritmo da ordem cósmica. Como Pitágoras, o Filósofo começa a enxergar nas coisas do mundo a aparência do número. A Filosofia transforma-se numa águia dourada para conduzir o Filósofo às regiões etéreas. O Filósofo sente-se arrebatado e voa nas asas da águia em direção ao Amor maior, e logo ele percebe na natureza uma Presença. Ocorre o encontro entre a razão e a beleza como preparação para as Leis Eternas. Por fim, o Filósofo depara-se na Via Symbolica com o misterioso e imponente Palácio da Memória e da Transcendência.     
 
Canto III 
 
O fúlgido crepúsculo expirava
Quando me apercebi que, ao acaso,
Rompendo o atro silêncio desse ocaso,
Uma indistinta música ecoava.
 
Que me diz esse som? Eu indagava.
E o coração revolto no descaso, 
E em tudo uma resposta ao mesmo acaso,

O belo aroma que me alentava.

Era a música das esferas, das estrelas!

Maravilhosas em órbitas elípticas,

E imagens assustadoras, apocalípticas!

Brilhavam como a chama de mil velas.

Senti passar por mim na transcendência

Qual vultos de fantasmas e miragens,

Rodas de fogo e gelo em carruagens,

Formas e matérias em potência.

E eram números! O sonho de Pitágoras!

Volvendo ao Quaternário da Saudade

No ritmo e expressão da unidade

E o sopro vital no céu de Anaxágoras.

Áureas flamas, vagas, luzidia

Números do esplendor da forma pura

Urdidos pelas mãos da formosura

Tecidos pela luz de um claro dia.

Luares claros, vênus lhes servia.

Por terra, por céu, por noite escura,

O sangue das batalhas e a ternura

Das luzes solidárias da harmonia.

A perfeição dos números e sua beleza

Do qual o mundo é sombra e é disfarce,

Nas lágrimas sinceras da catarse,

Purificavam toda a natureza.

O número é símbolo e é sinal

Da ordem do ser e melodia,

(A cada hora e momento e instante e dia),

Refaz o sonho e a lira celestial.

A Filosofia Concreta me ensinava

– Águia dourada: o trivium e a liberdade -,

As lições da consciência e da verdade,

O destino das almas encantava.

Nas asas dessa águia eu voava

Contra dragões de imortais cabeças,

De astro em astro; (e em estrela resplandeça),

O Amor que o universo inteiro devorava (9)!

A Natureza deixou-se conhecer,

E eu vi nas trevas as luzes renascendo,

Oceanos verdes águas iam tecendo,

E a Presença Infinita de Outro Ser.

Uma força maior que a Natureza

Permitiu-me enxergar na intuição,

Os mistérios, princípios da razão,

Todas as leis da imortal beleza!

***

O Palácio da Memória e Transcendência (10)

Ergue-se, enfim! Das sombras das luzernas,

Então eu pude ver as leis eternas!

Que formam o Ser e o nada na imanência (11).

Quarta direção

A Contemplação das Leis Eternas

Os números começam a surgir do infinito. À medida em que contempla a infinita capacidade de combinação dos números e as diversas ordens de realidade que estes concrecionam, o Filósofo vai sentindo sua consciência se ampliando. Ele, então, é conduzido aos planetas do sistema solar. Cada planeta simboliza um número e uma ordem de realidade (12). O Filósofo contempla demoradamente as Leis Eternas.  A dialética simbólica se desdobra e se desenvolve via espaço e via tempo. Há o encontro da estrela com o número nos mares de Netuno. O Filósofo contempla, ao final, a Década Sagrada e o nascimento da Árvore da Vida.

Canto IV

Os números surgiam do infinito

Um, dois, três e quatro, cinco, seis e sete,

Como elétrons giravam o molinete,

Oito, nove e dez! fechavam o rito.

E cada um na multiplicidade (13)

Na aritmética fundamental do caos,

Da consciência subia os seus degraus,

E encontrava a ordem na unidade.

Levou-me ao Sol à imortal beleza

Cujos raios de estrela me guiavam,

As rodas da fortuna incendiavam

E atravessavam o céu com aspereza.

Do Um eu via a Suprema e pura forma

Ubiqüidade. Sol do amanhecer,

A proporção intríseca do Ser,

E a integração no Amor que se transforma.

Era a lei da unidade! O Ser Supremo

Que todos outros seres obedecem,

Como soldados amorosos seguem,

O sacrifício cristão de Amor extremo.

Em Mercúrio encontrei a oposição.

Do dois. (Do Alto Ser e das criaturas),

Que sofriam na matéria a ruptura,

E a quebra da unidade e integração.

Morava a paz no coração profundo

Necessária desordem do objeto,

Da Lei que limita e gera o ser concreto,

E todas as tensões que criam o mundo.

O fundamento persiste na essência,

(O infinito o ser finito toca,)

E em múltiplas potências se desloca,

O Ato permanente da existência.

Em Vênus a Lei três se apresentava

Qual profecia sagrada e incomum,

Unia o um ao dois e o dois ao um,

A Relação dos seres confirmava.

Na sombra da lua em suas mutações

Encontrei, afinal, O Quaternário,

Subi também às sombras do calvário,

Em cruzes, fases, mistérios e estações (14).

Em Marte presenciei longas batalhas

De Amor e ódio! De opostos circulares,

E a Lei Cinco: Banquete nos altares,

Corredores de espadas e navalhas.

Na Lei Cinco eu vi o céu por dentro.

E infinitas combinações em mil arranjos,

De estrelas sempiternas e arcanjos,

Possuindo a Forma estável como centro.

Em Júpiter a criação ganha sentido

A Lei do Seis integra os pontos altos,

Dentro do ser existem enormes saltos,

Que a Revelação tem acolhido.

No Seis a harmonia subordina

Todos opostos que se contradizem,

Para que as feridas cicatrizem,

O seis se espalha qual canção divina.

Por todo o universo se espalhou

A canção de Deus na luz dos astros,

A evolução do Sete segue os rastros,

Nos anéis de Saturno se inspirou.

Tempestades febris no céu de Urano

Mais mutações nas formas e nas eras,

A Lei do Oito (a assunção) deveras,

Refaz no mundo inteiro um novo arcano.

Estrela e número! Encontro cardinal!

Nos mares de Netuno as ondas bravas,

Das almas no Amor ressuscitadas,

À Lei da integração universal.

Era a Lei do Nove em formas várias

Síntese de três mundos e formosura,

Dos entes singulares a estrutura,

À todas às espécies solidárias.

Cheguei, enfim, ao Dez!E procurei

A Lei da unidade transcendente,

Que rege a essência humana e o acidente,

O destino do universo eu contemplei!

***

Das Leis Eternas a auréola mais louçã

Iluminava o mundo A Década Sagrada,

E a Árvore da Vida desejada (15),

Nascia com as flores da manhã.

Epílogo: A Quinta Via

A Inteligência Ordenadora (16)

Com o epílogo, os números reinam na realidade, ainda que humildes e discretos como os monges. Um imenso poema é tecido por todos os signos do zodíaco, e forma-se um círculo de percepções filosóficas no céu. Com os pés na terra, o Filósofo descobre que deve guiar sua inteligência por meio da regularidade e dos ritmos dos astros. A ordem cósmica inspira a Filosofia Concreta na Via Symbolica (17). Chega-se ao fim da caminhada. A oração do Filósofo sobe aos céus, e há o milagre da transfiguração do Sol. A Filosofia Concreta conduz o Filósofo, por fim, ao encontro da Presença Total do Grande Ser.

Canto V

Coroados de luas e estrelas (18)

Os números a noite iluminavam

Qual monges nos desertos e capelas.

Dentro da esfera secular cantavam

No círculo do céu grande poema,

Os signos no espaço celebravam!

Cintilações do Amor: Ordem e Sistema

O que compõe a celestial ciência,

E as demonstrações de um teorema.

Os astros guiam assim a inteligência

No início, fim e meio da jornada

Á concreção no centro da consciência

O coração é a verdadeira estrada

Deixando-o iluminar em palco imenso

Chegamos ao final da caminhada.

Subiu ao céu a oração do incenso

(Entre espécie e seres singulares?) (19)

Na transfiguração do sol suspenso.

E a Filosofia mostrou, enfim, nos ares

Abençoada pelo amanhecer,

No infinito ritmo dos mares:

A Presença Total do Grande Ser!

Notas

1. Dedico este ensaio à Érica Melo: uma escorpiana linda que causa sempre em mim os maiores espantos filosóficos.

2. A Astrologia aqui é compreendida como estrutura ou sistema cosmológico tradicional que integra e articula a natureza, o símbolo e a filosofia.

3. Referência à Santa Teresa D´Ávila (1515-1582) célebre mística espanhola e conselheira de São João da Cruz.  O curioso é que o autor deste poema astrológico parece saber que a Filosofia Concreta realizada por Mário Ferreira dos Santos é uma síntese perene de várias tradições filosóficas já existentes e que remontam aos milésios, aos jônios, a Platão, Aristóteles, São Tomás e todo um gênero de grandes espíritos. Albano Reis procura também situar o sistema de intuições espirituais de Mário Ferreira dos Santos como tendo uma de suas origens e fontes de inspiração na mística cristã.

4. Dizia Mário Ferreira dos Santos em Tratado de Simbólica:

“O homem moderno predominantemente metropolitano, que perdeu os nexos simbólicos dos fatos, não vê bem a significabilidade das coisas. Elas apenas são factos do seu mundo sensível, ou, quando muito, intelectualizados através dos sinais e símbolos matemáticos. Tal facto não revela uma superioridade do homem moderno, porque nesse preciso momento em que ele esquece a via symbolica, ou que ele a perde totalmente, encontra-se só, coisa entre coisas, e a angústia que o avassala é mais o sentir de um vazio, de uma falta, que o homem, por desconhecê-la, traduz pelo conceito que expressa a sua grande ausência: nada. E se lhe perguntarem por que se angustia, entre espantado e atônito ele balbuciará apenas: ‘não sei, angustio-me por nada’.”

5. Para que as Leis Eternas sejam reveladas faz-se necessário o percurso da Via Symbolica. Essa é uma tese implícita na obra de Mário Ferreira dos Santos, que Albano Reis busca ressaltar. Infelizmente, essa perspectiva não está muito clara para muitos dos leitores de Mário Ferreira dos Santos e, em parte, isso se deve a própria organização editorial dos textos do filósofo brasileiro. Partir logo para o monumental pensamento metafísico de Mário Ferreira dos Santos sem passar pelo treinamento simbólico que torna concreta e sensível a ordem da realidade é o mesmo que desaguar num mero abstratismo lógico e formal – algo tão combatido por Mário Ferreira dos Santos como um mal da filosofia da nossa época. Por outro lado, iluminar as sombras da caverna é um simbolismo que, na tradição filosófica, remete ao mito da caverna de Platão. A luz entra aqui como símbolo da inteligibilidade, que torna possível – por meio da dialética – alcançar a verdadeira forma das coisas e os princípios que regem a estrutura da realidade.

6. Aqui, mais uma vez, Albano Reis parece querer aproximar o pensamento de Mário Ferreira dos Santos ao dos místicos cristãos. A expressão “noite escura da alma” remete a São João da Cruz. Prometo escrever sobre isso num ensaio próximo. Há uma série de aspectos ligados a Saturno nos versos do Canto II. Saturno possui uma influência marcante sobre os filósofos. Isso também pode indicar que as revoluções de Saturno estejam presentes no momento atual vivido por Albano Reis, que deve possuir, hoje, por volta de 29 anos de idade.

7. Algumas passagens deste Canto parecem sugerir técnicas para uma Arte Poética. Mas eu procuro compreender – dentro da proposta filosófica – essas passagens como a necessária estetização do mundo sobre a qual vai ser exercida a Via Symbolica.

8. Essa aproximação entre a Missa Católica e o Apocalipse foi muito bem apontada pelo teólogo Scott Hahn em O Banquete do Cordeiro, em que vemos, entre inúmeros aspectos interessantes, a analogia feita entre a Presença Real da Sagrada Eucaristia e a segunda volta do Nosso Senhor Jesus Cristo.

9. O Amor dos místicos (o amor que transfigura) existe aqui, obviamente, como uma expressão real do Amor de Deus. O que há de muito interessante neste ponto é que Albano Reis não toma a natureza como substituta da presença do ser, como fazem os românticos. A linguagem simbólica conduz aqui a um outro plano de realidade, e a ordem cósmica existe apenas dentro das Leis Eternas. Assim como São Tomás de Aquino, Mário Ferreira dos Santos tende a tomar a filosofia da natureza um sinônimo de teologia simbólica e não uma expressão metafísica e absoluta.

10. O Palácio da Memória e Transcendência certamente é uma evocação agostiniana. O método da memória em filosofia possui em Santo Agostinho uma de suas mais altas realizações. O Palácio da Memória e Transcendência muito se assemelha também ao centro da autoconsciência humana, que é o sacrário onde o filósofo se confessa e fala com Deus.

11. Como explica Mário Ferreira dos Santos em Tratado de Simbólica:

“A transcendência absoluta do ser não exclui a imanência total, porque todo ser finito, enquanto tal, não é o ser transcendente, mas é ser, e do ser, e a sua finitude não exclui a infinitude, porque desta ele depende. Tudo quanto é, no ser é do ser, e o que é finito participa desse Ser sem que o seja em toda a plenitude”.

12. A analogia entre o planeta e a lei eterna (cujo símbolo máximo neste Canto é o encontro cardinal entre o número e a estrela) consiste em integrar a ordem cósmica à ordem divina. Integração essa que não se desfaz em um só momento, mas que o símbolo ajuda a unificar no pensamento. No Canto IV, na quarta direção da Via Symbolica, há uma descrição detalhada de Albano Reis de cada uma das Leis Eternas de Mário Ferreira dos Santos.

13. “A dialéctica funda-se, portanto, na unidade do ser e também na unidade da inteligência, como um poder, cujo objecto natural é o ser. A unidade do ser afirma sua imanência absoluta em toda a multiplicidade, e é expressada pelos nossos esquemas. O ser transcendental é imanente a todo ser, e em todo o modo de ser, e é através da multiplicidade que a dialéctica o alcança”. Mário Ferreira dos Santos, em Tratado de Simbólica.

14. Entre múltiplas analogias do Quaternário, Albano Reis está se referindo, obviamente, aos quatro vértices da cruz, as quatro fases da lua, aos quatro mistérios sagrados e às quatro estações do ano. Mário interessou-se muito por essa simbólica, a ponto de fazer dela um de seus critérios para o estudo comparativo das grandes religiões.

15. Paralelo tecido entre a Década Sagrada dos Pitagóricos e a Árvore da Vida da tradição mística judaica.

16. O curioso é que o poema prometia quatro direções para uma Via Symbolica e é concluído com uma Quinta Via.  Essa é a mesma Quinta Via utilizada por São Tomás de Aquino para demonstrar a existência de Deus.

17. Albano Reis cumpre a “Profecia de Platão” exposta no Timeu há mais de dois mil anos: a de fazer da Astrologia – ou contemplação do movimento dos astros no céu – o fundamento e critério para a organização do pensamento filosófico, uma vez que as órbitas celestes obedecem às leis divinas.

18.Albano Reis escreve o epílogo em terza-rima, o que pode indicar ou a maturidade do pensamento filosófico alcançado à semelhança do silogismo, ou analogias simbólicas para a Santíssima Trindade.

19. Albano Reis parece querer encerrar seu poema como Aristóteles encerrou seu sistema filosófico: com uma grande interrogação sobre a singularidade do ser versus o seu aspecto e qualidades genéricas. Mas Albano Reis segue adiante e mostra como essa unidade do ser está dada e ocorre perante a Presença Total do Grande Ser. A presença do ser não se trata apenas de uma solução poética, mas de um dado absolutamente incontornável da realidade. Certamente Mário Ferreira dos Santos veria na presença do Ser o fundamento absoluto da concreção de todos os seres.

Veja-se também como a resolução do poema remete às imagens do livro do Gênesis: o Filósofo atravessa a Árvore da Vida e vai contemplar o princípio de todas as coisas, antes mesmo da criação do universo. A Filosofia apresentará ao Filósofo o Supremo Ser pairando sobre os mares (“E o Espírito de Deus pairava sobre as águas”, Gênesis 1:2) voltando, enfim, à origem de todas as ordens de realidade. No discurso filosófico tradicional temos, com Tales de Mileto, também a cosmologia primeira que assenta sobre as águas o princípio de todas as coisas e a substância simbólica (em que há a presença de Deus) como fundamento concreto de todas as coisas que existem.

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Uma resposta para Ode à Filosofia Concreta

  1. Pedro Matsu disse:

    Demorei a escolher um post para comentar e optei por este aqui tão somente pela data: tive esperança de que, sendo um dos últimos, o comentário seria lido mais rápido!
    Parabéns ao grupo pelos textos e pela nobilíssima causa. Sou aluno do COF e conheço as obras do Mário Ferreira dos Santos desde 2009, mas só agora me sinto mais ou menos à vontade para estudá-lo apropriadamente – e esse site ajuda demais!
    Gostaria de me corresponder com o grupo porque meu interesse coincide com o do filosofiaconcreta.wordpress.com, sendo certo que tenho muito a aprender com vocês. Ficaria muito feliz se pudessem me ajudar na difícil empreitada [pelo menos para mim] de bem compreender esse monstro da Filosofia que foi o Mário Ferreira dos Santos.
    Um abraço e continuem o bom trabalho! Deus os abençoe!

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