Editorial #2

Um sábio no deserto

Mário Ferreira dos Santos, arquiteto de um imenso edifício sintético, também não deixou de dar destaque a algumas concepções que lhe eram mais estimadas. Se podia ele captar positividades nas mais diversas e aparentemente inconciliáveis doutrinas, havia sem dúvida aquelas que fundavam noções nucleares em seu corpus filosófico. Entre estas, encontramos o mehrwollen de Nietzsche, a noção do querer mais, da vontade transcendental, do instinto humano de superação.

Há quem diga que o homem é um ser condicionado de forma quase absoluta pelo ambiente em que reside e no qual se cria. Este é um argumento facilmente impugnável, porque negligencia esse atributo importantíssimo que é o máximo definidor da essência humana: a vontade. O homem é inegavelmente um ser dotado de vontade. É claro que os outros animais também possuem vontade, mas uma vontade adequativa, instintiva, verdadeiramente condicionada. A vontade do homem é completa. Ela é também adequativa, sem dúvida alguma, mas, na sua especialidade, se torna extrínseca, exteriorizante, absoluta sobre as demais faculdades. Somente no homem um efeito pode ser não só distinto de sua causa, como infinitamente maior do que ela. Os animais buscam a sobrevivência; o homem busca a superação.

Já que estamos falando de Mário Ferreira dos Santos, sejamos concretos. É claro que todo homem é precedido pelo mundo, e por isso sua vontade jamais será absoluta; esta é a tensão inescapável de sua inteligência e de sua finalidade. O homem, vivendo no mundo, tem sua vontade proporcionada ao mundo. A pura vontade a partir de uma perspectiva individual e alienada é uma vontade burra, perigosa, luciferiana; a pura vontade a partir de uma perspectiva humana, centrada, compreensiva, dirigida ao Ser, é uma vontade inteligente, uma vontade sapiente, para Mário uma vontade cristianizada.

Mas como toda lei está repleta de excentricidades, especialmente no caso do homem, há também vontades que despontam em ambientes onde sua emergência é considerada virtualmente impossível, como num simulacro de Deus, aquele que ex nihilo criou tudo. O homem só dá o “grande salto” (e nos eximimos aqui de quaisquer alusões evolucionistas baratas) ao realizar o empreendimento cósmico, o ímpeto irradiante, o mehrwollen prussiano, a “vontade de potência”. E esta conquista, dada sua raiz essencialmente ontológica, não pode jamais ser um resultado de construção mecânica ou de mero cultivo orgânico; há uma luz, um esplendor, uma capacidade humana rebenta ofuscando todas as contingências.

Não nos esqueçamos que a maior história de todos os tempos se deu no deserto. Há quem tenha atingido ainda mais sabedoria sob tais condições, porque é cercado pelo nada que o todo se faz revelado; segundo a mística, quando sobrevém o silêncio na mente, é desperta a verdade no coração do homem. Ora, não há pois tanta verdade no árido deserto quanto a há nas frondosas e úmidas selvas? Existe por acaso algum abismo entre a tundra e a pradaria, entre o verde e a rocha, entre o gelo e a relva? Existe uma realidade para tudo e uma realidade para nada? Tentemos unir estes dois pólos que surgem em nossas reflexões e veremos como o seu paradoxo é uma ironia cósmica perene, ecoando desde a fundação do universo até os milagres de nossos dias.

Se me pedirem um exemplo mais concreto, serei obrigado a me lembrar da história de Mário Ferreira dos Santos. Este homem foi um grande peregrino do deserto. Sua biografia e sua imensa produção filosófica nos fazem lembrar da sua luta que empreendeu sozinho contra a aridez e a modorrenta violência das areias, mantendo o seu andar cercado pela hostilidade natural, perdido em um terreno destituído de quaisquer atrativos por quilômetros e quilômetros, um ambiente virtualmente incapaz de produzir coisa alguma e que, pior, lentamente extrai as forças de seus vagantes, drenando seus corpos e cercando suas mentes de miragens. Mário foi, enquanto espírito, como os Padres do Deserto, abrindo na imensidão de aridez a sua fonte de verdade, o seu oásis de juízos necessariamente válidos. Mário foi o profeta escaldando no deserto, o Homem do Meio-dia imerso na vastidão saárica de nossa cultura.

“Procurar sempre um homem e não encontrar mais que uma besta de rebanho”, era essa a agonia nietzscheana que Mário descrevia em “O Homem que Nasceu Póstumo”, em uma passagem que hoje nos parece uma velada auto-referência. Em geral, os grandes gênios se sentem fora do seu tempo, porque é próprio da genialidade transcender o seu ambiente de criação. Todo gênio é fruto de uma excentricidade, de uma brincadeira divina, de um tapa na cara de behavioristas, construtivistas e quejandos.

“O gênio não vence por si, mas apenas sobra ou sobrevive da derrota total. Esse é o aspecto trágico da genialidade. Por isso, não se podem acusar as multidões de não compreenderem os gênios. Eles têm que ser incompreendidos (…) Só uma humanidade de gênios poderia entender os seus gênios.”

“Lógica e Dialética”, p.239

Como disse certa vez Olavo de Carvalho, o Brasil não comporta Mário Ferreira dos Santos. Tal afirmação parecerá muito exagerada para quem não tiver ainda compreendido a qualidade emergente – eu diria quase milagrosa – da obra de Mário ante o cenário que lhe precedera. Pior ainda; ao olharmos para a história e vermos que o o Brasil podia ainda contar àquela época com figuras isoladas como Vilém Flusser, Otto Maria Carpeaux e Miguel Reale, resta-nos apenas tentar imaginar que titânica subversão da realidade seria o nascimento da Filosofia Concreta na atual cultura brasileira. Se Mário já demonstrava um enorme repúdio ao inerme ambiente universitário de então, talvez restasse-lhe hoje somente a resignação estupefata e silenciosa, assistindo o espetáculo da decadência entre sombrosas meditações. Entretanto, as próprias palavras de Mário indicam que, mesmo no tenebroso início de século XXI, o seu espírito matético faria o possível e o impossível em busca da própria superação, para tentar ordenar o caos no qual milagrosamente haveria de surgir.

Lembramos de uma palestra sobre Psicologia, onde Mário retratava-se quanto a algumas críticas que havia recebido devido à sua concepção de cristianismo, julgava ele que os verdadeiros santos não são os que se afastam, os que se isolam, mas os santos extrínsecos, os santos irradiantes, os santos que transbordam o seu amor e sua sabedoria. Houvesse uma justa revisão de toda a hagiografia católica, dizia Mário, caberia a dúvida quanto a algumas canonizações. Repudiava, assim, a dita sabedoria intrínseca, eremita, e parece que Mário tomava de partida a sua própria experiência. Nascido numa imensidão desértica, Mário poderia ter sido um eremita, poderia ter encarcerado suas geniais lucubrações, poderia ter simplesmente enterrado a cabeça no solo fino, ou abandonado este lar de loucos e cegos. E hoje não estaríamos falando dele, mas quem sabe discutindo conhecimentos valiosíssimos como, por exemplo, a quantidade exata de grãos de areia debaixo de nossos pés.

Jamais neguemos, é claro, o valor dos sábios reclusos, porque muitos deles tiveram sua importância. Mas a nossa época, senhores, exige mais de nós, exige mais de todos. Se a vontade extrínseca é necessária em todas as horas, em todos os tempos, em todas as circunstâncias, hoje ela o é infinitamente.

Neste 3 de janeiro, data do nascimento de Mário Ferreira dos Santos em 1907, comemoremos o fiat lux de uma das maiores inteligências do séc XX. Mas não peçamos para apagar a vela do bolo; deixemos que ela queime, que arda sozinha, iluminando como pode o breu que ameaça engolir todas as suas perspectivas. Porque nestas perspectivas ainda há, dada sua infinita potência intrínseca, a capacidade de realizar as mais milagrosas transformações humanas. Há, enfim, certas possibilidades que escapam às nossas investigações, e o desespero será sempre fruto da negação pura e irrestrita:

“O Brasil, pelas suas condições históricas, porque é um país que recebeu os povos de todos os quadrantes do mundo e conseguiu dar uma convivência entre todos, a mais harmônica que se conhece na História, pois não há entre nós nenhum conflito de caráter racial ou de caráter étnico, isto é raro, e daí que este povo poderá lançar uma visão ecumênica, uma concepção universal, porque qualquer ciclo cultural que se forme hoje, no mundo, tem que ser ecumênico, universal, porque a ciência está abrindo as fronteiras, enfim o conhecimento é universal, por mais que os políticos cerrem as fronteiras, façam muros da vergonha, cortinas de aço, o conhecimento está penetrando, está atravessando e vai além, e este mundo se tornará num só. Nós, brasileiros, somos capazes de viver o equilíbrio dentro do heterogêneo e seremos capazes de unir os opostos que se analogarão numa concepção universal.”

Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro Convivium, 1964

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3 respostas para Editorial #2

  1. Leonardo Rodrigues Lopes disse:

    Caros,
    Estou precisando da tradução do Mario Ferreira dos Santos do livro da Interpretação de Aristóteles. Algum de vocês tem digitalizado?
    Estão fazendo um belo trabalho.
    Obrigado.

  2. Renan disse:

    Olá, Leonardo, obrigado pelo apoio.

    Quanto à sua pergunta, de comentários do Mário a Aristóteles só possuímos as “Categorias” e a “Isagoga” de Porfírio, o consagrado comentário da Antiguidade às mesmas “Categorias”. Duas obras sensacionais do mestre Mário, por sinal.

  3. Renan, tudo bem? Por que vocês pararam com a revista? Vamos unir esforços e angariar patrocínio e estudiosos para aprofundar os estudos na obra do professor Mario Ferreira dos Santos.

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